Quando um estado aparece no topo de uma lista de recuperação judicial, é natural pensar que algo deu errado com os produtores de lá. Mas o número conta outra história. Por que o Mato Grosso, justo o estado que mais produz, é também o que mais pede recuperação judicial?
O que dizem os números
Segundo a Serasa Experian, o Mato Grosso teve 332 pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio em 2025, à frente de Goiás e do Paraná. No Mato Grosso do Sul, os pedidos subiram 52% no primeiro trimestre de 2026.
Esses números somam produtores e empresas da cadeia do agro. Eles mostram escala, e não fracasso: quanto maior a lavoura, maior costuma ser a dívida quando o clima, o preço e o custo dos insumos não ajudam ao mesmo tempo.
Recuperação judicial não é atestado de fracasso
A recuperação judicial é uma ferramenta prevista em lei para reorganizar as dívidas de uma atividade que ainda pode produzir. Em vez de cada credor cobrar por conta própria, todos se reúnem em torno de um plano de pagamento, acompanhado pelo juiz. A fazenda continua trabalhando enquanto o plano é cumprido.
Se quiser entender o básico antes de seguir, leia também Recuperação judicial do produtor rural e Recuperação judicial rural não é calote.
Dívidas que a MP 1.376 deixou de fora
Um ponto importante neste momento: a renegociação aberta pela MP 1.376 alcança essencialmente dívidas bancárias. Ficam de fora, por exemplo, as dívidas com revendas de insumos e com arrendamento.
A recuperação judicial pode ser o caminho para tratar essas dívidas de forma organizada, junto com as demais, respeitadas as exceções previstas em lei. Por isso, antes de decidir qualquer coisa, vale olhar a dívida por inteiro, e não só a parte do banco.
Mas não serve para todo caso
A recuperação judicial tem requisitos e custos, exige documentação contábil em ordem, um plano viável e pode afetar o crédito no futuro. Para alguns produtores, uma renegociação, um alongamento ou outra medida podem ser mais adequados. A decisão precisa de análise séria, caso a caso.
Perguntas comuns sobre recuperação judicial no agro
Pedir recuperação judicial é desistir da fazenda?
Não. O objetivo é reorganizar as dívidas para que a atividade continue produzindo.
A recuperação judicial inclui dívida com revenda e com arrendamento?
Pode incluir, conforme o caso e observadas as exceções legais. É um dos motivos pelos quais ela é estudada quando a MP 1.376 não alcança a dívida.
Mato Grosso lidera por que os produtores de lá gerem pior?
Não é isso que o número diz. Ele reflete a escala das operações e o tamanho do crédito envolvido.
Por onde começar
Antes de qualquer decisão, organize o básico:
- a lista de todas as dívidas, com credor, valor, vencimento e garantia;
- os contratos com banco, revenda e arrendamento;
- a documentação contábil da atividade;
- o que já foi negociado e o que está em cobrança.
Com isso reunido, fica mais fácil avaliar qual caminho faz sentido. Converse com um advogado de sua confiança antes de decidir.
Entender a recuperação judicial
Dra. Ana Paula Conrado OAB/MT 23.001
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